Quando procurar uma psicóloga perinatal? Sinais, urgência e como funciona
Vale procurar uma psicóloga perinatal quando, na gestação ou depois do parto, a tristeza, a ansiedade, a culpa ou o medo duram mais de duas semanas, atrapalham o dia a dia ou simplesmente pesam demais. Também vale procurar depois de uma perda gestacional ou de um parto difícil. Não é preciso estar em crise: o acompanhamento também serve para prevenir.
O que faz uma psicóloga perinatal
O período perinatal vai da gestação até o primeiro ano depois do parto. A psicóloga perinatal acompanha as emoções desse período: as mudanças de identidade, de rotina e de relação que chegam com um bebê, e também os quadros que podem aparecer, como depressão e ansiedade. Na prática clínica, esse cuidado se estende a quem está tentando engravidar e a quem passou por uma perda gestacional ou neonatal.
É mais comum do que parece
- No mundo, cerca de 13% das mulheres que acabaram de ter filho têm algum transtorno mental, principalmente depressão; nos países em desenvolvimento, perto de 20%.
- No Brasil, a pesquisa Nascer no Brasil encontrou sintomas de depressão pós-parto em 26,3% de quase 24 mil mulheres.
- No Rio de Janeiro, entre 2021 e 2023, dois meses depois do parto, 17,9% das mulheres tinham sintomas de depressão e 16,3% de ansiedade.
- A ansiedade também aparece na gestação: entre 18% e 25% das gestantes têm sintomas, conforme o trimestre.
Sinais de que vale procurar ajuda
- Tristeza, vazio ou irritação que não melhoram depois de duas semanas.
- Perda de interesse pelo que antes fazia sentido, inclusive pelo bebê.
- Preocupação que ocupa o dia, tensão no corpo ou dificuldade de dormir mesmo quando dá para dormir.
- Culpa ou vergonha intensas, sensação de não ser uma boa mãe.
- Pensamentos indesejados sobre o bebê se machucar que causam muito sofrimento, tomam horas do dia ou levam a checar e evitar o tempo todo.
- Medo do parto que tira o sono ou ocupa boa parte do seu pensamento.
- Dificuldade de se sentir ligada ao bebê que preocupa você.
- Uma perda gestacional ou neonatal, em qualquer semana.
- Um parto difícil que volta à memória com angústia.
- Histórico de depressão ou ansiedade, ou pouca rede de apoio: são fatores de risco conhecidos, e acompanhar desde cedo ajuda.
Ter um ou outro desses sinais por poucos dias é comum, sobretudo nas primeiras semanas depois do parto. O que pede atenção é a duração, a intensidade e o quanto eles atrapalham a sua vida.
Baby blues ou algo mais?
Nos primeiros dias depois do parto, cerca de 4 em cada 10 mulheres ficam mais sensíveis, choram fácil e se irritam. É o baby blues, que costuma passar sozinho em até duas semanas. Quando os sintomas são intensos ou passam desse prazo, podem ser depressão pós-parto, que tem tratamento. Veja também: Baby blues ou depressão pós-parto?
Você não precisa estar em crise
A psicoterapia não serve só para tratar. A força-tarefa de prevenção dos Estados Unidos (USPSTF) recomenda aconselhamento psicológico para gestantes e puérperas com maior risco de depressão, justamente para prevenir. E a terapia cognitivo-comportamental tem forte evidência tanto para tratar quanto para prevenir a depressão perinatal.
Quando é urgente
Pensamentos de se machucar ou de machucar o bebê são sinal para buscar ajuda imediatamente, sem esperar uma consulta marcada. Ligue para o CVV, no 188 (gratuito, 24 horas), para o SAMU, no 192, ou vá a um pronto-socorro. Se possível, peça a alguém de confiança para ficar com você.
O que a lei garante
- Lei 14.721/2023: a assistência psicológica à gestante, à parturiente e à puérpera deve ser indicada após avaliação do profissional de saúde no pré-natal e no puerpério, com encaminhamento conforme a necessidade.
- Lei 15.139/2025: depois de uma perda gestacional, de óbito fetal ou neonatal, a mãe, o pai e a família devem ser encaminhados para acompanhamento psicológico após a alta, quando pedirem ou quando for necessário.
Como funciona o atendimento online
O Conselho Federal de Psicologia regulamenta o atendimento por videochamada na Resolução CFP nº 9/2024. A psicóloga precisa ter inscrição ativa no Conselho Regional, avaliar se o formato online é adequado para cada caso e informar quais recursos usa para proteger o sigilo. Situações de risco ou de emergência podem pedir atendimento presencial junto. Com o atendimento online, é possível ser acompanhada de qualquer lugar do Brasil, sem deslocamento, o que costuma pesar muito com um bebê pequeno em casa.
Perguntas frequentes
Preciso de encaminhamento médico para procurar uma psicóloga?
Não. Você pode procurar diretamente. Se houver necessidade de avaliação médica ou de medicação, a psicóloga orienta e pode trabalhar junto com o seu médico.
Posso começar ainda na gestação?
Sim. A depressão perinatal pode começar ainda na gestação, e começar o acompanhamento antes do parto ajuda a se preparar para as mudanças que vêm depois.
E se eu não souber se é “só cansaço”?
Na dúvida, procure uma avaliação. Cansaço que não melhora com descanso, junto com tristeza ou perda de interesse por mais de duas semanas, merece ser olhado por uma profissional.
Referências
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Perinatal mental health. acessar
- Theme Filha MM, Ayers S, Gama SGN, Leal MC. Factors associated with postpartum depressive symptomatology in Brazil: The Birth in Brazil National Research Study, 2011/2012. Journal of Affective Disorders, 194, 159-167, 2016. acessar
- Theme-Filha MM et al. Mental disorders in the Postpartum Period in Rio de Janeiro 2021-2023: Nascer no Brasil II Study. Revista de Saúde Pública, 59(supl. 1), e8s, 2025. acessar
- Dennis CL, Falah-Hassani K, Shiri R. Prevalence of antenatal and postnatal anxiety: systematic review and meta-analysis. British Journal of Psychiatry, 210(5), 315-323, 2017. acessar
- National Institute of Mental Health (NIMH). Perinatal Depression. acessar
- Hutchens BF, Kearney J. Risk Factors for Postpartum Depression: An Umbrella Review. Journal of Midwifery & Women's Health, 65(1), 96-108, 2020. acessar
- Collardeau F et al. Prevalence and Course of Unwanted, Intrusive Thoughts of Infant-Related Harm. Journal of Clinical Psychiatry, 85(3), 23m15145, 2024. acessar
- Rezaie-Keikhaie K et al. Systematic Review and Meta-Analysis of the Prevalence of the Maternity Blues in the Postpartum Period. Journal of Obstetric, Gynecologic & Neonatal Nursing, 49(2), 127-136, 2020. acessar
- US Preventive Services Task Force. Interventions to Prevent Perinatal Depression: Recommendation Statement. JAMA, 321(6), 580-587, 2019. acessar
- Sockol LE. A systematic review of the efficacy of cognitive behavioral therapy for treating and preventing perinatal depression. Journal of Affective Disorders, 177, 7-21, 2015. acessar
- Brasil. Lei nº 14.721, de 8 de novembro de 2023 (altera o ECA para assistência psicológica à gestante, à parturiente e à puérpera). acessar
- Brasil. Lei nº 15.139, de 23 de maio de 2025 (Política Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental). acessar
- Conselho Federal de Psicologia. Resolução CFP nº 9, de 18 de julho de 2024 (serviços psicológicos mediados por tecnologias digitais). acessar
Você não precisa atravessar isso sozinha
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